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O Santuário Yasukuni

O SANTUÁRIO YASUKUNI

Com as recentes polémicas em volta das visitas de membros do Governo Japonês ao SantuárioYasukuni, a AAPJ deixa na sua Biblioteca Digital um artigo para que se possa perceber melhor
o que essas polémicas envolvem.

santuário Yasukine no Japão - aapj

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A 26 de Dezembro de 2013, o Primeiro-Ministro japonês, Shinzo Abe, fez uma visita oficial ao Santuário Yasukuni. Esse acto aborreceu vários países asiáticos, como a China e a Coreia do Sul, e teve a reprovação dos E.U.A., aliados do Japão. Porque causará então tanta controvérsia uma visita a este santuário? Para o cidadão português comum um acto religioso dessa natureza não tem muito significado. Então analisemos, brevemente, a história desse santuário e como uma simples visita pode alvoraçar nações inteiras.

Yasukuni – Memória e Paz

A história deste santuário remonta ao século XIX e à Guerra Boshin, guerra esta que reestabeleceu o poder imperial no Japão. No fim desta guerra, em 1869, o Imperador Meiji, estabeleceu o Santuário Tōkyō Shōkonsha, para honrar todos aqueles que deram a sua vida em favor do Imperador. Após 10 anos e algumas rebeliões suprimidas, em 1879, o Imperador Meiji renomeou o santuário para Yasukuni Jinja, literalmente “O Santuário Pacificando a Nação”. Assim os espíritos desses mortos, que defenderam o Imperador e a Nação, foram acolhidos em Yasukuni, tornando-se kami, ou divindades.
Com o passar dos anos e de várias guerras em que o Japão participou, o número daqueles que eram acolhidos em Yasukuni aumentou. Com a expansão do Império Japonês, o Imperador Meiji alargou a autorização de acolhimento a não japoneses, como os Coreanos, que morressem pela defesa do Japão e do Imperador.
Com a chegada dos militares ao poder, no período entre guerras mundiais, o controlo de Yasukuni passou para as mãos dos militares, e a divulgação dos nomes de quem era acolhido deixou de ser do conhecimento público. Mesmo assim o santuário continuou a ser um símbolo de unidade nacional e de dedicação ao Imperador. Durante a 2ª Guerra Mundial deu moral aos soldados, em especial àqueles que iam em missões suicidas pois, como diziam, haviam de se encontrar outra vez em Yasukuni.

Yasukuni – A controvérsia

Durante este período, desde a época Meiji até à ocupação do Japão pelos Aliados, Yasukuni nunca levantou controvérsia. Apenas em 1985, 40 anos depois do fim da 2ª Guerra Mundial, rebentou a controvérsia. Mas ela foi o resultado de acções tomadas nos anos da ocupação e nos imediatamente a seguir à saída dos aliados do Japão.
As autoridades da ocupação aliada, emitiram a “Directiva Shinto”, ordenando a separação da religião do estado, forçando o Santuário Yasukuni a escolher ser uma instituição secular governamental, ou uma instituição religiosa separada do estado. Assim Yasukuni escolheu ser uma entidade religiosa independente na Associação de Santuários Shinto.
Em 1959, numa acção conjunta entre o Santuário e o Ministério da Saúde e da Segurança Social, foram acolhidos em Yasukuni a grande maioria dos mortos na 2ª Guerra Mundial. Nestes estavam incluídos muitos civis, homens e mulheres, que morreram nesta guerra.
Nenhuma destas acções suscitou, ou ainda suscita, controvérsia. Ela surge apenas após as acções do sacerdote principal do Santuário em 1978, Nagayoshi Matsudaira. Após a
assinatura do Tratado de Paz entre o Japão e os Aliados, comummente chamado de Tratado de São Francisco, 1951, começou-se a pensar em acolher criminosos de guerra em Yasukuni. Mas foi só depois de em 1958 terem sido libertos os acusados de crimes de guerra, que se iniciou esse acolhimento. Nesse processo apenas criminosos de nível C ou B foram acolhidos. Em 1970 foi decidido também acolher criminosos de nível A, mas o acolhimento foi adiado até depois da morte do então sacerdote principal. Após a sua morte, o seu sucessor, o sacerdote Nagayoshi, realizou em segredo, a cerimónia de acolhimento. Apenas em 1979 essa informação foi conhecida, o que deixou o Imperador Hirohito descontente, resultando na sua recusa em visitar o Santuário até à sua morte, exemplo seguido pelo seu filho ainda hoje.
Desde essa data, muitos membros de governos japoneses têm visitado Yasukuni, mas a título pessoal. Só depois da visita do Primeiro-Ministro Yasuhiro Nakasone, em 1985, se levantou a controvérsia. Nessa altura foi tão grande que durante alguns anos mais nenhum Ministro visitou o Santuário.
A visita seguinte seria em 1996, pelo então Primeiro-Ministro Ryutaro Hashimoto, mas fê-la apenas a nível pessoal, para cumprir uma promessa ao seu mentor de infância. Só em 2001, com a visita oficial do Primeiro-Ministro Junichiro Koizumi e as subsequentes visitas anuais, é que a controvérsia retornou. Koizumi fez campanha para a liderança do seu partido, baseada na promessa de visitar anualmente Yasukuni, independentemente do criticismo de outros países, de maneira a ganhar os votos dos nacionalistas. Por sua vez eles deram-lhe não só a liderança do partido, como também a do governo japonês. Seguiram-se acusações por parte de vários países que combateram e/ou foram ocupados pelo Japão na 2ª Guerra Mundial.
Após 7 anos desde a última visita oficial de um Primeiro-Ministro a Yasukuni, Shinzo Abe, volta a levantar a controvérsia, agravada com a visita no dia de Ano Novo pelo Ministro dos Assuntos Internos do Japão. Em sua defesa Shinzo Abe afirma que visitou Yasukuni, não para homenagear criminosos de guerra, mas para mostrar àqueles que morreram pelo Japão o trabalho que o seu governo tem feito e assegurar-lhes que continuarão a fazer o seu melhor.

Yasukuni – Um outro ponto de vista

Com os dados apresentados neste pequeno artigo, e tantos outros em livros ou na internet, poder-se-á chegar a uma conclusão precipitada. É certo que não se devem exaltar criminosos de guerra.
Neste caso há um aspecto muito relevante que deverá ser tido em conta: o Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, foi alvo de muitas críticas. A principal das quais é o facto de utilizar a chamada “Regra da melhor evidencia” para recolher informações. Através deste processo pôde ser feita uma acusação baseada apenas no que alguém disse, sem ser necessária a apresentação de provas. Assim alguns juristas acreditam que nem todos os julgamentos foram justos tendo sido lavradas sentenças que tiveram como base testemunhos com intenções de vingança, pelo que muitos inocentes terão sido condenados.
Esse factor aliado à libertação de todos os criminosos de guerra ainda vivos, em 1958, dá razões para se acreditar que talvez muitos dos acolhidos em Yasukuni como criminosos de guerra não o teráo sido na realidade. Há a acrescentar que a maioria dos que lá foram
acolhidos foram militares e civis que se regeram pelas leis e honra militares, pelo que pelo menos esses merecerão a devida homenagem.
Nesta questão muito complicada, resta-nos esperar que impere o bom senso e que famílias, de ambos os lados de um conflito que terminou há perto de 70 anos, possam honrar os seus entes queridos falecidos.