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Arte Japonesa

Arte Japonesa

Espelho de bronze com pega de Fujiwara Masashige – Espelho de bronze com pega de Fujiwara Masashige

ESPELHO DE BRONZE COM PEGA de Fujiwara Masashige, por Samuel Veiga Silva.
Escolhi esta peça devido ao meu gosto pela cultura japonesa, pelo trabalho em metal, por ter visitado o British Museum, onde esta peça está exposta e porque ela é uma boa representação da influência chinesa no Japão.
Espelho japonês em bronze do século XVIII, com entalhes de motivos naturais, inscrição identificando o autor e uma pega revestida de vime.

aapj - espelho de bronze com pegaO Bronze no Japão

Os primeiros indícios de trabalho em bronze no Japão são da época Yayoi, isto é, cerca de 300 AEC. Na época anterior, tal como na Yayoi, existem muitas peças em argila, mas no quarto século AEC a introdução do bronze provoca uma mudança significativa na sociedade japonesa e na sua arte. O bronze foi introduzido via China-Coreia-Japão, tal como muitas outras técnicas e filosofias. Tal como na China o bronze foi um factor de distinção entre estratos sociais, sendo que possuir artigos em bronze era indicativo de um estatuto elevado. Isso é mais pertinente no Japão devido à sua escassez em metais. Assim vemos que em termos do uso de metais o mais usado pelos estratos mais baixos era o ferro, pois podia ser produzido num forno por qualquer pessoa, enquanto que devido à necessidade de trabalho especializado na sua produção, o bronze era mais caro e logo acessível apenas para os mais abastados. Por isso, na época Yayoi, vemos um aparecimento de espelhos, lâmina cerimoniais, e sinos usados em rituais, feitos de bronze.

A importância do Espelho no Japão

A mitologia Xintoísta conta-nos que, depois de ser envergonhada pelo seu irmão Susanō, a divindade solar Amaterasu refugiou-se dentro de uma gruta, mergulhando o mundo na escuridão. As outras divindades penduram um espelho e um colar de jóias numa árvore e realizam uma festa, numa tentativa de atrair Amaterasu para fora da gruta. Ao espreitar para ver o que se passo,
Amaterasu é atraída ao espelho e às jóias. As outras divindades apanham-na e fecham a gruta. Assim Amaterasu volta a dar luz ao mundo. O seu irmão, Susanō, é castigado e durante as suas viagens mata um monstro gigante e recupera do seu corpo uma espada, que mais tarde, oferece a Amaterasu como prova do seu arrependimento.
Mais tarde, Amaterasu designa ao seu descente Jimmu a tarefa de pacificar o Japão, entregando-lhe o Espelho, a Jóia e a Espada como sinal da sua aprovação como Imperador do Japão. Assim ainda hoje a Espada, o Espelho e a Jóia são o Tesouro Imperial e símbolos do Japão. Daí a grande importância do espelho na cultura japonesa.
No inicio da época Yayoi (cerca de 300 AEC-300 EC) o espelho era visto como símbolo de autoridade, sendo que foi cedo que os japoneses aprenderam o método de cera-perdida no seu fabrico. Nesta época os espelhos eram redondos e com decorações chinesas e japonesas. No período seguinte, o período Nara (710-794), os espelhos já eram feitos para uso diário, sendo predominante animais e plantas japoneses na sua decoração. Em épocas seguintes o formato e temas decorativos foram-se modificando, passando de espelhos redondos sem pegas, a espelhos com pega, como o espelho feito por Fujiwara Masashige.
Os temas decorativos em voga na época Kamakura (1185-1333) era o Hōraizan, isto é, a “Ilha da Imortalidade” chinesa. No período Edo os temas chineses continuavam em alta, sendo representados fauna e flora como simbolismo de sorte, que eram oferecidos às mulheres no seu casamento.
Os espelhos em bronze foram substituídos por espelhos em vidro na Restauração Meiji (1868).

Elementos decorativos no espelho

Neste espelho da época Edo estão presentes elementos naturais, fauna e flora, com simbolismo intrínseco. Estas representações, bem como o seu significado, são importadas da China e aplicadas ao Japão, geralmente como o significado chinês. Como já mencionado, este símbolos queriam trazer sorte ao presenteado. Mas vamos analisá-los um por um.
Primeiro o Pavão (imagem 1). Sendo uma ave muito bela, significa primeiramente isso mesmo, beleza. Mas também tem outros significados. No Clássico das Mutações, o pavão é referido como sendo culto e tendo 9 virtudes: boa aparência, voz límpida, andar gracioso, pontualidade, apetite controlado, contentamento,lealdade para com o seu grupo, moralidade e a capacidade de aprender com os seus erros. Era também um símbolo de dignidade, tanto que os altos dignitários, principalmente durante a dinastia Qing, usavam uma pena de pavão nos seus chapéus. Também era acreditado ao pavão o poder de repelir o mal, pois, na realidade, os pavões quando ameaçados por serpentes não têm problemas em atacá-las.

A Ameixoeira em flor (imagem 2). Sendo que é vista como a primeira flor a desabrochar antes da  Primavera (por volta de Janeiro/Fevereiro) é símbolo de perseverança e como anuncia a Primavera é também símbolo da pureza feminina. Tendo a sua flor 5 pétalas é símbolo de sorte, associada com as Cinco Bençãos:  velhice, riqueza, saúde, amor à virtude e morte natural. Visto ser homófona com sobrancelha (mei) e quem as tem muito longas é um sinal de longevidade, é também encarada como símbolo de longevidade. A ameixoeira é muitas vezes associada com o pinheiro e o bambu, formando os Três Amigos do Inverno, de novo, um símbolo de perseverança.

Os Lírios (imagem 3). Em chinês o nome dos lírios, baihe, é homófono de “cem” (bai) e “união” (he), o que representa uma longa união. São também conhecidos por “trazerem filhos”. Por estas razões são oferecidos às noivas a quando do seu casamento. Também se acredita que come-los trará longevidade.

Àgua (imagens 4 e 5). A àgua é um elemento recorrente na arte asiática, especialmente nas paisagens. Sendo a água um dos 5 elementos, simboliza o yin ou príncipio feminino. A água é suave, flexível e dócil como uma mulher deve ser, aos olhos da cultura chinesa. Isso lembra-nos do príncipio de Laozi no Daodejing de o fraco vencer o forte e o suave subrepor-se ao duro, neste caso, a mulher pelas suas qualidades suaves, sobrepõe-se ao homem duro e rígido.

Conlusão
Podemos chegar à conclusão, que excluindo que este espelho tenha sido produzido para venda comum, ele poderá ter sido feito com alguém em mente. Digo “poderá”, pois só o artesão podiam dizer-nos o que, ou quem, tinha em mente que realizou este trabalho, o que não pode acontecer. Com a analise feita podemos conjecturar que este espelho foi feito para uma mulher recém casada, ou que se iria casar, como objectivo de desejar sorte, um longo e feliz casamento.

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